A ansiedade não é apenas uma sensação que aparece e vai embora. Quando ela se instala, traz consigo uma cadeia de reações que muitas vezes nem percebemos que estão conectadas como sensações no corpo, emoções, sentimentos, comportamentos. Cada pessoa reage à sua maneira.
Muitas pessoas enfrentam quadros de ansiedade, e este artigo busca olhar para um ponto específico dessa experiência: como a ansiedade afeta nosso senso de autocrítica e a nossa capacidade de pedir ajuda para lidar com a vida.
Quando a ansiedade aperta: reagir ou acolher?
Uma coisa é sentir ansiedade. Outra, bem diferente, é como reagimos a ela.
Quando a ansiedade chega, muita gente entra no modo controle total: faz listas, planeja tudo nos mínimos detalhes, organiza, reorganiza, como se colocar tudo no lugar fosse fazer a sensação passar. Mas, na maioria das vezes, a ansiedade só aumenta. Porque o problema não é a falta de organização. É outra coisa.
Outras pessoas se distraem, trabalham mais, ocupam a cabeça, fogem do que estão sentindo. E funciona… por um tempo, até o corpo cobrar a conta.
E há quem paralise. Fica sem saber por onde começar, travada(o), e vem aquela culpa pesada: “Por que eu não consigo simplesmente fazer?”
O que raramente aprendemos é acolher. Respirar. Não lutar tanto contra o que sentimos. Entender que a ansiedade também passa, e que podemos conviver com ela sem nos perder no processo. Só que esse processo, muitas vezes, não dá pra atravessar sozinha(o).
A autocrítica que não dá trégua
Quando a ansiedade se instala, ela geralmente não vem sozinha. Costuma trazer consigo uma autocrítica feroz.
“Será que estou fazendo o suficiente?”
“E se eu errar?”
“Eu deveria estar dando conta disso.”
O nível de exigência que colocamos em nós mesmas(os) fica altíssimo. Quando erramos (e todo mundo erra), a autocrítica vira um disco que não para de tocar.
Vejo muitas pessoas que ruminam por dias após um erro, repassam mentalmente, pensam no que poderiam ter feito diferente, se culpam. Outras tentam compensar: “Errei aqui, então vou ser perfeita(o) ali.” São pensamentos compensatórios, tentativas de dar conta de tanto…
E aí eu sempre pergunto: você trataria uma(um) amiga(o) assim?
Se compararmos o jeito que nos tratamos quando erramos com o jeito que tratamos uma(um) amiga(o), a diferença é gritante. Somos gentis com o outro. Acolhedoras(es). Compreensivas(os).
Conosco? Muitas vezes, nem um pingo de compaixão.
Não permitimos ter um ritmo mais leve. Não nos permitimos não ser perfeitas(os). Não permitimos errar e construir as coisas como processos — que é o que elas são, afinal.
E isso pesa. Pesa emocionalmente. Cansa. Esgota.
A solidão de carregar tudo sozinha(o)
Quando a ansiedade está alta e a autocrítica está pesada, o que fazemos?
Pedir ajuda parece fraqueza? Parece não dar conta? Parece ser um peso?
Mesmo quando cogitamos pedir ajuda, surge aquela voz interna: “Ah, não é tão sério assim. Elas(eles) têm coisas mais importantes pra fazer. Eu não quero incomodar.”
Mas aqui vai uma verdade incômoda (com o perdão do trocadilho): vínculos geram incômodo. A vida é feita de incômodo.
Vivemos em conjunto. E viver em conjunto significa, sim, incomodar e ser incomodada(o). Significa pedir e ser pedida(o). Compartilhar responsabilidades, experiências, dificuldades, a própria vida.
Existe diferença entre se aproveitar de alguém e compartilhar o peso. Entre exigir demais e pedir o que é legítimo pedir.
Muitas vezes, nem testamos isso. Ficamos no imaginário, pensando no que o outro pode estar pensando, sem trazer o assunto pra um diálogo real. Sem realmente perguntar. Sem dar chance da outra pessoa dizer se pode ou não pode.
E sabe o que mais? Quando não pedimos, quando carregamos tudo sozinhas(os), também mantemos as pessoas à nossa volta em um lugar confortável.
“Ah, eu não quero incomodar.”
Mas talvez precisemos incomodar. Assim como precisamos ser incomodadas(os). Porque é nesse incômodo que a vida se move. Que as relações ganham profundidade. Que a gente cresce.
O ciclo que se retroalimenta
Observe o movimento:
A ansiedade aperta.
Reagimos tentando controlar, distrair ou paralisar.
A autocrítica aumenta a pressão: “Você deveria dar conta. Você não pode errar.”
E, em vez de pedir ajuda, carregamos sozinhas(os). Porque pedir parece fraqueza. Porque minimizamos o que sentimos. Porque não queremos incomodar.
E tudo isso gera mais ansiedade, mais autocrítica e mais solidão emocional.
O ciclo se fecha. E a gente fica girando nele.
Sair do ciclo é possível
Não existe uma fórmula mágica para quebrar esse ciclo. Não é da noite para o dia que aprendemos a acolher a ansiedade em vez de brigar com ela. Nem é rápido desenvolver compaixão por si mesma(o). E pedir ajuda, com clareza, sem culpa, sem minimizar? Isso é processo.
Mas é um caminho possível.
Começa por perceber… perceber a ansiedade, as reações, a autocrítica, o peso de carregar sozinha(o).
Depois, nomear, colocar em palavras o que se sente. Porque quando o emocional não encontra palavra, ele vira sintoma: tensão no corpo, insônia, exaustão.
E, aos poucos, escolher. Respirar em vez de controlar. Ser gentil em vez de se martirizar. Pedir ajuda, mesmo com medo, mesmo achando que vai incomodar.
Porque a verdade é essa: precisamos incomodar. E precisamos ser incomodadas(os).
É assim que a vida tem movimento. É assim que as relações se fortalecem. É assim que entendemos que não precisamos carregar tudo sozinhas(os).
E você?
Como tem sido isso pra você?
Consegue perceber quando está reagindo à ansiedade em vez de acolhê-la?
Consegue se tratar com a mesma gentileza que trata os outros quando erram?
Consegue pedir ajuda — de verdade, sem minimizar, sem culpa?
Não precisa ter resposta agora. Mas vale a reflexão.
Porque escolher olhar pra si, mesmo quando é difícil, já é um ato de cuidado.
E se você sente que precisa de um espaço para aprofundar essa conversa, a terapia pode te ajudar nesse processo. É um espaço de escuta, sem julgamento, onde podemos caminhar juntas(os).